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Jornalista, casada e amante das palavras. A pernambucana mais brasiliense de todas.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Mais que vencedora

Uma parte de mim se perdeu pelo caminho. Uma parte do sorriso, da música, da serenidade. O chão se abriu de novo e caí a uma velocidade angustiante. Quando cheguei ao fundo, só encontrei a saudade, dolorosa como ela só. Aos poucos, os sentidos voltaram à tona e me lembrei de que a tia Virgínia já não sofria mais, mas desfrutava de algo que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram. Ela nunca abandonou a batalha. E sabia quem estava no controle de tudo. Seu legado ficou em forma de lembrança. Das gargalhadas que demos juntas, da determinação com a qual ela trabalhava, da generosidade com a qual nos recebia, do seu estilo único de ser, cheio de estampas, cores e badulaques, das palavras que ela escreveu e disse, das peças que encenou para propagar o amor de Cristo, do testemunho que tanto nos inspirou e inspira. Na verdade, ainda não consigo acreditar que não vou ouvir mais aquela doce voz nas nossas longas conversas ao telefone. Mas consigo acreditar que ela queria que nós continuássemos firmes. Porque ela está bem agora. E em paz. E é por isso, e por muito mais, que ela foi mais que vencedora.

domingo, 3 de junho de 2012

Danke schön


Em meados de fevereiro desse ano, chego ao trabalho para uma sexta-feira comum. Sento-me para fazer login e ver a pauta do dia, quando, de repente, avisto o coordenador de reportagem vindo em minha direção. 'Você vai pra Alemanha'. Assim, sem rodeios, sem mais detalhes, simples e direto. Com cara de surpresa, pergunto: quando? 'Semana que vem', ele responde. Mais uma missão se aproximava, afinal, oportunidade não se amassa e joga fora. Pouco tempo para preparar tudo, tomar pé do planejamento da cobertura presidencial, incluindo flashes diários e matérias para TV e rádio e, ainda por cima, arrumar a mala para o inverno europeu. Dentro de poucos dias, lá estava eu, cruzando de novo o Atlântico, para uma terra desconhecida, com muita expectativa na bagagem. Hannover era meu destino, com uma conexão em Frankfurt. A essa altura, impossível não lembrar de Adorno e Horkheimer, das antigas aulas de teorias da comunicação. No caminho, sento ao lado de uma alemã, moradora de Hannover, que voltava de um intercâmbio de cinco meses em Buenos Aires. Ela gentilmente topou me ensinar algumas expressões básicas. 'Danke schön' foi uma delas, que quer dizer 'muito obrigado'. Foi, de fato, uma grata surpresa pisar naquele lugar. Apesar de ter tido a mala extraviada pela primeira vez (e devolvida horas depois no hotel), convivi com renomados colegas de profissão, como o jornalista Marcos Uchôa. Cobri a visita da presidente Dilma Rousseff à maior feira de tecnologia do mundo, num imenso centro de convenções, que parecia uma cidade, com dezenas de pavilhões. Vi a barra de ferro cair no pé da presidente, enquanto ela nos falava sobre os efeitos da crise e a desvalorização das moedas. Lidei com o mau-humor de alguns taxistas alemães. Mas devo dizer que uma das coisas mais estranhas foi ouvir o hit 'Ai se eu te pego' tocando numa rádio alemã dentro de um outro táxi. Na conexão de volta, aproveitei as poucas horas em Munique para pegar o metrô e ir até o centro da cidade com a equipe. Que lugar impressionante e grandioso. Antes de voltar pra minha terra natal, tive a exata noção de como somos crianças perto do velho mundo. Como cantou Renato, somos tão jovens. E Brasília, então, é um bebê recém-nascido, ainda nos cueiros. A vida acontece de novo de forma surpreendente e gratificante. Muito trabalho, muita ralação, mas muita experiência boa na bagagem de volta, como sempre. Por isso, mais uma vez repito: Danke schön! A Deus, por me permitr mais essa oportunidade, à família, pelo apoio imprescindível, e a todos que contribuíram para o sucesso de mais uma árdua cobertura!

Gravando nas ruas de Hannover


Faixas espalhadas pela cidade dão boas-vindas ao Brasil
Na montagem da Cebit - Feira de Tecnologia da Informação e Comunicação



Manifestação na Cebit

Como dizem, tinha mais jornalista que gente (risos)

E os guias tentando organizar tudo

Lá estavam elas sob os holofotes

Colega de cobertura

Dilma e Merkel com estudantes

Mais parceiros de cobertura

Dentro da imensa área do Centro de Convenções

Equipe no carro de geração
 
Linguiças e chucrute para matar a fome

Despedida de Hannover. Dever cumprido! Valeu equipe!
Aproveitando a conexão em Munique com mapa na mão.


Munique no fim da tarde

Ruas de Munique




Barraquinhas contrastam com lojas

Pensando em como o Brasil é jovem
Voltando pra casa, para afugentar a saudade

sábado, 26 de maio de 2012

Desaba o mundo



Tempo, tempestade. Cinza, nostalgia. Terra, fertlidade. Semiárido, agonia. Desaba o mundo fora e dentro do peito. O sol foi embora, o riso foi também. Daqui a pouco ele volta. O que não volta é o tempo, que ficará para sempre travestido de lembrança. Chuva traz saudade, traz melancolia. Mas o sertanejo dançaria na chuva, pelo fim da espera, que de tão cruel parece eterna. Depois dessas poucas palavras, o sol já vem vindo ali, tímido entre nuvens, dissipando esse breve devaneio.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Saudades de mim



O espelho vazio. O papel em branco. A pena sobre a mesa. A tinta ressecada. Não há rastro pela sala, só do vento, só do tempo. O tempo que levou embora as horas e minutos, que fugiram a galope nos ponteiros do relógio. Tempo que passou e só deixou vestígios, e não palavras. Porque não houve tempo para colocá-las no papel. O mesmo papel que repousa sobre a mesa, a espera da pena, da tinta e de alguém que no espelho reflita essa triste saga da falta de mim.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Antes tarde



Eis que aos 45 do segundo tempo, dou o ar da graça. Último dia de janeiro, primeiro post de 2012. Qual a pena para o crime de abandono de blog? Seria a reclusão de ideias, pensamentos, fatos e acasos? Essa já foi paga, com juros e correção. Para me redimir, quero dizer que frente às escolhas inerentes a um novo ano, escolhi continuar com esse Caso Antigo. Janeiro foi um mês intenso. Já fiquei de férias, fui freelancer, subi e desci a serra de Angra dos Reis debaixo de chuva, fui e voltei de Salvador em memória das vítimas do Holocausto, resolvi ler o livro de uma testemunha ocular dos campos de concentração. Aliás, 'O Homem que venceu Auschwitz' deve me ensinar muito até a última página. Quero ser testemunha ocular das próximas páginas desse ano, compartilhando aqui cada palavra que saltar desse cotidiano imprevisível. Antes tarde do que mais tarde, felizes novidades para todos. Que sejam as melhores possíveis. Se não forem, que tragam lições preciosas para a vida. Compartilho com todos uma taça do legítimo Dom Pérignon, ainda que virtual. Welcome, 2012!

sábado, 24 de dezembro de 2011

É Natal. Simples assim.


Dia quente e ensolarado lá fora. Cozinha exalando o perfume do banquete de mais tarde. O tradicional Zucotto, da sobremesa, devidamente preparado, com todo o esmero necessário. Pudim para o almoço de amanhã no forno. O gás acabou bem na hora, como era de se esperar, mas em dez minutos chegou um rapaz eficiente de plantão para repor. Todas as pessoas da família já passaram pela minha cabeça. Aquelas de perto, cada uma, e as de longe também. Já dei alguns telefonemas. Mais tarde tem mais 21. Pela janela, calmaria. Mercados e lojas já estão fechados. Cada família, a seu modo, prepara o encontro ao redor de uma mesa. Tempo de agradecer porque um menino nos nasceu, na simplicidade de uma manjedoura, para nos ensinar a ser simples. Que aprendamos todos com Ele. E vamos celebrar a vida, com a simplicidade de um sorriso e de um abraço.

Um Natal de luz e paz a todos!

São os votos do Caso Antigo. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Palavras-chave de hoje

Suicidio
sem agua
no sol de meio dia
enquanto outros nadam
cupula interminavel
surreal
chega
fui

PS: O cansaço nao me permite mais completar frases e períodos. Depois que eu retomar a consciencia, tomar um banho, me alimentar e tiver um teclado com todos os acentos que preciso, retomo o fio da meada.

De Montevidéu, no Uruguai, um restinho de mim.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Ausência de cor

Nas aulas de artes do ensino fundamental a gente aprende que o preto significa ausência de cor. E mais tarde, descobrimos que o luto significa muito mais que ausência de cor, mas a ausência de alguém amado. Hoje nossa aquarela sente a falta de uma das suas cores mais vibrantes. Uma cor que deixou o tom marcante da saudade, que hoje faz aniversário. Um aniversário sem cor. Cinco anos sem meu pai. Parece que foi ontem. Parece que nunca foi. Porque a ausência dessa cor vai durar pra sempre.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Casa no campo


Ontem tive um estranho desejo de ter uma casa no campo. Num lugar cheio de flores, plantas e silêncio. Cheio de paz e pássaros para cantar na janela. Cheio de verde. Apenas uma rede na varanda fresquinha no entardecer e um cafezinho quente com pão no amanhecer. Vida elementar, onde o vento sopraria uma canção em cada fresta, e eu docemente acordaria em festa, de bem com a vida, com a cabeça leve e os pés firmes no chão, de terra. Comer fruta do pé, colher a salada do almoço, plantar, como diz Elis, meus amigos, discos e livros. E nada mais. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Um desejo



'Pitanga, vieiras grelhadas, folhas precoces e bruscheta de coral'. Há algum tempo passei a perceber que antes de se comer com a boca e com os olhos, saboreia-se com a imaginação. Prova disso é a entrada descrita no cardápio do restaurante de um renomado chef dinamarquês que escolheu Brasília como habitat. Só de ler me dá água na boca, ainda que eu não conheça as nuances dessa mistura. Mas de tanto apreciar esta nobre arte gastronômica, às vezes me vem um desejo enorme de fazer dela um hobby levado a sério. Não que eu precise estudar na Cordon Bleu, mas talvez fazer uns cursos por aí, experimentar novos sabores, dar nome às minhas invenções. Mas antes, preciso saber inventá-las. Porque comer é mais que um ato de sobrevivência para quem ama cozinhar, é um ato de prazer e inspiração. Quisera eu fazer tais peripécias na cozinha, com ingredientes raros e comuns em harmonia perfeita. Colocar a mesa e convidar os amigos para uma surpreendente degustação, regada a um bom bate-papo. Mas por enquanto recorro àqueles que já desvendaram o caminho das pedras e das panelas. É uma pena que não é todo dia que se pode usufruir de cardápios maravilhosos e ousados, assinados por um chef. Acabamos deixando para as ocasiões especiais, especialíssimas. Mas cada uma delas se torna inesquecível, já que um sabor cativante vira lembrança e nunca mais sai da memória. Cada prato especial que provei está devidamente registrado. Quem sabe um dia este vire um blog de culinária para que possa ser mais que lido, degustado. Bom apetite!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Passando a limpo

 
Fim de ano. Hora de fazer aquela faxina não só nos papéis, mas nas metas, sonhos e objetivos. Um balanço inevitável e imprescindível. Muitos sentimentos ruins para jogar fora, algumas atitudes para reciclar, mais amor para doar, junto com peças de roupa que certamente ainda alegrarão o dia de alguém. Tempo também de acionar aquelas memórias adormecidas, que trazem tantas lições. Há de se contabilizar a dor das perdas e o prazer dos ganhos. Há que se somar as lágrimas de alegria e as de tristeza e dividi-las pelas emoções de cada instante. O resultado será a trajetória corajosa de romper mais um ano cheio de experiências novas ou reinventadas que certamente efetuaram alguma forma de amadurecimento. Para esta conta não é preciso calculadora, mas um coração disposto a mudar o que for preciso. E se o tempo gasto com coisas pequenas e inúteis foi superior aos minutos nobres de alegria e paz, de gargalhadas despretensiosas e de abraços apertados, está na hora de inverter a ordem dos fatores. De parar de apenas lavar a roupa suja, mas usar a roupa limpa. E entrar no novo ano livre de ressentimentos, e com muita vontade não só de ser, mas de fazer o outro feliz.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sessão da Tarde

Quarta-feira chuvosa e repetitiva na capital federal. Nunca assisti tantas vezes ao mesmo filme, esta é a 6ª, e não se sabe se será a última. Há várias sugestões para o título da Sessão da Tarde. Poderia ser: A Queda - parte 6, ou quem sabe, Ministros em Apuros, ou ainda, A Faxina Continua, mais uma: Entrando numa fria 6 vezes maior. Uma perfeita tragicomédia. É literalmente rir para não chorar. Me agrada, particularmente, o fato da sujeira não ficar debaixo do tapete, mas me incomoda a possibilidade da sujeira existir da forma como está sendo colocada. Quero acreditar na justiça do país, apesar da magistrada ter soltado o verbo recentemente, sobre os bandidos de toga. Só nos resta esperar o desfecho, regado a muita pipoca e debaixo do cobertor, porque a gripe está chegando! 

sábado, 22 de outubro de 2011

Amor amado

Será que é possível amar o amor? Amar esse sentimento que de tão nobre não é apenas emoção, mas é dom? Dom perfeito, característica inerente ao próprio Deus, e criado por Ele. É possível amar esse dom de se dar, de se perdoar, de tudo crer e tudo esperar? Será que a também nobre língua portuguesa permitiria tal redundância? Pois que as regras e sintaxes dêem licença, porque amar o amor é mais que reticente, é eterno. É abstrato que se torna concreto em cada ação e gesto. É atitude de reconhecer que, sem amor, nada se aproveita, nada se é, nada. E se para Mário de Andrade, amar é verbo intransitivo, crio aqui uma exceção, uma oração subordinada: o amor. Agora tudo faz sentido. Amar o amor é possível, porque Deus é amor.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Resumo da ópera

Chegada à África

Meu amado regente costuma dizer que a primeira e a última nota da música são as mais importantes. Precisam ser precisas, afinadas, mais que corretas, bonitas. Mas o caminho a percorrer entre elas é diverso, cheio de altos e baixos. Notas longas, de perder o fôlego, ou curtas, stacatas. Semibreves ou semicolcheias. E, às vezes, é preciso silenciar. As pausas estão ali pra isso. Um descanso necessário, em meio a tantos acordes. Com este prelúdio, quero dizer que a minha primeira impressão da África foi uma nota de tirar o fôlego, de uma beleza árida e complexa. Com uma pausa no sono, decidi abrir a janela do avião na hora exata em que ele chegava ao continente. Com olhos não mais sonolentos, mas deslumbrados, vi o primeiro deserto da minha vida, o Kalahari. O oposto da fartura, uma desconcertante escassez. O silêncio nos acordes me acordou de vez para essa nova realidade. Foi o rito de passagem da primeira nota para uma melodia inédita e cheia de contrastes. Da moda careca da mulher africana ao turbante do jornalista indiano que veio pautado pelo mesmo IBAS. Iniciais de Índia, Brasil e África do Sul, que se uniram há alguns anos para tentar amenizar justamente os contrastes sociais. Mas o que mais me chamou atenção neste lugar não foi a Cúpula, com seus infindáveis protocolos, e sim os tons e semitons desse cenário multicultural, que despertaram ainda mais o meu senso de cidadã do mundo, ainda que jamais tenha pisado em Nova Iorque. Foi um curtíssimo tempo, eu diria staccato, para ter impressões mais profundas. Mas só de pisar nas ruas da África do Sul, conhecer de perto algumas raízes brasileiras, brincar uma tarde com um filhote de leão, ver mais uma parte da criação de Deus, esbarrar com um rinoceronte iluminado na decoração de Natal do shopping e com a estátua gigante do Nelson Mandela, num país que há pouco tempo passou pelo absurdo regime de segregação racial do Apartheid, já valeu todo o esforço desta cobertura. A música começou com a pausa silenciosa do deserto para logo evoluir para virtuosos compassos. E antes que haja um contratempo, eu, como uma legítima contralto, encerro essa melodia com uma nota inspirada. Não um Dó, ou um Mi, mas um Sol, que de fato nasce para todos, indiscriminadamente, e ilumina toda essa rica oportunidade que tive, esperando que um dia haja um Ritornello. E como num Requiem, me despeço dessa terra colorida de jacarandás com um sonoro Amém.

Ruas floridas de Pretória - África do Sul

À esquerda, jornalista africana, e à direita, indiano. Diversidade.

3 continentes, 3 emergentes, 3 poderes: IBAS
Experiência inesquecível

Amolando os dentes no meu tênis

Foi nessa hora que levei a inevitável unhada

O pai do Simba
Nelson Mandela Square - Johannesburgo

Ao invés de renas, rinos.

Mais surpresas no shopping
E o último pôr do sol na África.
  

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Próximo destino: South Africa!


A vida segue cheia de novidades, mas sem tempo para registrá-las. Fatos novos e outros nem tanto. Um deles merece a manchete de hoje. Em poucas horas atravessarei de novo o oceano rumo a um destino inédito no passaporte: África do Sul. Depois da experiência chinesa, esta, sem dúvida, será a cobertura mais marcante nesta trajetória de ponte aérea. Terra do rinocerante branco, dos jacarandás e de tanta história que vou descobrir de perto. O voo vai até Johannesburgo, a maior cidade sul-africana, mas de lá seguimos para Pretória, a capital administrativa, onde na próxima terça-feira acontecerá a V Cúpula IBAS (Brasil, Índia e África do Sul). A mala certamente levará minha alegria e gratidão a Deus por mais esta oportunidade de desbravar esse mundão que Ele mesmo criou. África, aí vou eu! 

Parlamento de Pretória

sábado, 17 de setembro de 2011

Qual a nova?

Um certo homem, muito simples, trabalha recolhendo jornais para vender a uma empresa de reciclagem. Quanto mais, melhor. O peso dos tablóides representa quanto ele tirará de sustento ao fim de um dia. Mas este homem não é apenas um catador de papel. É um contador das manchetes que carrega debaixo do braço. De repartição em repartição, chega dando o resumo das notícias da semana. – Você viu? O preço da gasolina vai aumentar. E vai cair mais um ministro! Você viu? – Costuma dizer esbaforido de tanto andar. E quanto mais a pilha de jornais aumenta sobre seus ombros, mais variado fica seu repertório. Ninguém sabe ao certo o nome dele, mas por não guardar a informação só para si, e sair aos quatro cantos divulgando o que leu, este homem foi carinhosamente batizado de Clipping Hoje. O porta-voz mais eficaz de reportagens nas redondezas do Conic, em Brasília. Um batalhador que tem prazer no que faz. O tesouro dele está além do preço do papel reciclável. Está no peso das notícias que o tornam o homem mais bem informado do pedaço. Hoje, ele é quem virou manchete no blog, e eu digo a nova: É que a umidade relativa do ar passou de 10% para 64% em Brasília, e me trouxe de volta à vida e às palavras. Que venha a chuva estampada na capa dos jornais, para mais uma vez o Clipping Hoje exclamar: Você viu?!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Bocado seco

Queria fazer agora um texto alegre, brincando com palavras simples, boas de contar. Começo parodiando Milton, para dizer que até o simples é complicado. Aquele ponto percentual solitário da inspiração me deixa a ver navios nesse mar de terra do Cerrado. Não consigo pensar em mais nada a não ser no mar. Ou no rio, ou na chuva que, além de umidade, traz sempre um quê de melancolia e um fôlego novo para as palavras. Mas a seca assalta minha imaginação. Leva de mim até a última gota de pensamento. Deixa minha mente empoeirada. Tudo ao redor é sem cor, sem a vivacidade do verde. Só o ipê amarelo dá o ar da graça e, de graça, nos alegra o dia. Mas até o azul do céu se rendeu à névoa cinzenta e à fumaça densa que tanto incomoda os pulmões. A fartura de outrora, agora é escassez. É um bocado seco de ideias, que não passam de vãs repetições. Mas se o mar não vem me socorrer, a chuva há de cair e trazer de volta minhas palavras simples e complexas, meus textos alegres ou tristes, minha prosa, minha poesia. Enquanto isso, conto gotas de saudade, para não desperdiçar.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Balanço Geral

Entre margaridas e cravos, salvaram-se todos, menos Wagner Rossi. A semana ainda não acabou, mas até aqui foi uma avalanche de acontecimentos que já permitem um balanço, ainda que parcial. 70 mil campesinas do país se alojaram no Pavilhão do Parque da Cidade para a quarta Marcha das Margaridas. Os motivos eram de força maior: combate à violência no campo, que matou Margarida Alves em 1983, melhorias no trabalho e outros benefícios, tudo já bem costurado com o governo. Elas andaram do Parque ao Congresso e deixaram milhares de motoristas aborrecidos. Pudera, carros e margaridas não ocupam o mesmo lugar no espaço. A divisão das faixas foi meio a meio, mas isso não foi suficiente. O engarrafamento foi inevitável. Mas embora os jornais locais só falassem dos transtornos do trânsito, elas não pareciam amarguradas, seguiam cantando. Especialistas já viram o congestionamento por outro ângulo: a culpa é do transporte público ineficiente, que não pode socorrer a população num dia atípico como este. Mas é mais fácil colocar a culpa nos movimentos sociais. Como se Brasília não fosse a capital federal e legítimo palco de manifestações democráticas. Brasilienses devem saber desta natureza, diferente de qualquer outro canto do Brasil. Ossos do ofício. Mas fato é que fiquei três dias atrás de histórias e respostas para as mulheres do campo. A presidente veio no apagar das luzes fazer os anúncios que elas queriam ouvir. No início do discurso chamou Agnelo Queiroz de Agnelo Rossi, talvez lembrando do ministro que naquele momento pedia demissão da pasta da Agricultura. Mas depois, com um chapéu na cabeça, falou o que estava no script. Era hora das centenas de ônibus de margaridas voltarem para casa para, daqui a 4 anos, retornarem à capital. Será que o sistema de transporte já estará pronto para recebê-las? Se elas geraram transtorno, imaginem os torcedores da Copa, do mundo todo? E a semana continua! 

sábado, 13 de agosto de 2011

O homem invisível

Carne, osso, coração, cérebro. Estava tudo ali, indiscutivelmente. Olhos para ver, braço forte para trabalhar, ouvidos para ouvir. Não parecia haver nada de errado com aquele homem, a não ser o fato de que ele nunca existiu oficialmente. Era um dos milhares de brasileiros que nasceram e cresceram no mais completo anonimato, sem certidão, sem data ou local de nascimento. Afinal, quem seria aquele homem forasteiro, sem lenço nem documento? Nome ele tinha, chamava-se Eduardo. Idade? Seu palpite era de 35 anos. Rosto sofrido por trabalhar de sol a sol, e mais ainda por não conhecer bem seu passado, sua origem.  Por não exercer direitos, só deveres. Dever de ser quem nunca foi no papel. De trabalhar sem garantias. De lidar com a indiferença social. Seu documento era sua palavra. Dizia ter nascido no Maranhão, e vivia de lembranças. E ao ser questionado sobre como calculava a idade, contou que sua mãe, também sem certidão, o ensinou a contar o tempo. Mas isso não era suficiente, precisava de testemunhas que comprovassem sua existência e dessem fé de sua história. Encontrei outros tantos protagonistas de histórias assim em Altamira, no Pará. Eduardo, agricultor, cansado dessa situação, participou de um mutirão para tirar finalmente a primeira via do registro. Na sala de audiências improvisada numa escola, aguardava ansioso na fila. Precisava das testemunhas e de uma foto 3x4. Estava a um passo de ser quem de fato era. Homem de bem, trabalhador, que só queria uma coisa: deixar de ser invisível para ser um cidadão.

Reportagem Cidadania Xingu - http://www.youtube.com/watch?v=aIuucOpLedU


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Xinguzão

Num barquinho, no meio do rio, uma linha, um anzol e um sorriso. Uma história de pescador. Um homem simples e feliz que sem aumentar nem inventar sentenciou: "Tudo o que tem de belo no mundo é o nosso Xinguzão!"

Conhecer um pouco da vida ao redor do Xingu foi tão surpreendente quanto ir ao outro lado do mundo. Um Brasil que jamais havia conhecido de perto se revelou a mim em incansáveis e intensos oito dias. Ao desembarcar em Altamira, no Pará, o ar puro da Amazônia já sarou meus pulmões ressecados de Brasília. Um paradoxo também já se revelava. O maior município do país, com área equivalente a cinco vezes o tamanho da Bélgica, por exemplo, tinha o menor aeroporto de todos por onde já passei. As malas são colocadas por funcionários sobre uma bancada de madeira. Esteira ainda não chegou por lá. Haja força. Depois das malas em mãos, a saída do despacho de bagagens daria direto na rua, no pequeno estacionamento do aeroporto. Ali, a densa vegetação amazônica dava as boas-vindas e renovava meu ânimo, até então seriamente prejudicado, por estar mais uma vez tão longe de casa. Prosseguimos em busca de personagens. Pessoas munidas de informações, histórias e emoções que nos ajudassem a entender aquele lugar imenso. A feira do produtor de Altamira foi a primeira parada. A gentileza e simplicidade do povo logo se revelaram também. Polpa de cupuaçu, tucupi e farinha de tapioca são ingredientes que não podem faltar na casa do altamirense. Como já dizia o feirante, "é tapioquinha de manhã, tapioquinha de tarde e tapioquinha de noite. A gente não vive sem nossa tapioquinha!" A partir daí um novo mundo se descortinava. Ali as pessoas se divertem nas praias. Praias de rio que logo sumirão por conta da grande hidrelétrica de Belo Monte. Elas também se equilibram sobre palafitas, fugindo para abrigos na época da cheia do rio e enfrentando riscos na seca, quando lixo e água parada se acumulam. Crianças correm para lá e para cá sobre as pontes de madeira, que podem ceder a qualquer momento, como aconteceu com Flávio, pai de família que quase perdeu a vida porque caiu sobre um copo de vidro. Dos 100 mil habitantes de Altamira, cinco mil ainda vivem nessa situação. "O que a gente quer mesmo é sair daqui", diz Flávio. E a cidade segue crescendo. Por conta da construção da usina, a expectativa é dobrar o número de habitantes num curto espaço de tempo. A especulação imobiliária já é fato. Aluguéis de 600,00 passaram para 1.500,00. De 1.000,00, para 3.000,00, e assim por diante, como contam os próprios moradores. A rua comercial é efervescente. Teve gente que abandonou a roça para abrir uma empresa. Está dando lucro. Mas muitos ao redor ainda vivem da terra. E a terra roxa, própria para o cacau, é uma das mais valiosas. "O ouro de Altamira é o cacau", já dizia o agricultor Antônio, mais conhecido como Baiano. Orgulhoso da fazenda que gerencia há 25 anos, ele não abre mão da lida. Parte o cacau com a mão mesmo e oferece para a equipe. Por ali também conheci um projeto pioneiro de cacau orgânico da Amazônia. Coisa fina. As amêndoas seguem direto para a Áustria, para fabricar um daqueles chocolates maravilhosos. Mas provei um chocolate artesanal, feito na panela mesmo. Gosto exótico, e não menos saboroso. Foram tantas novidades que não há como esgotar num post. Depois volto e conto da emoção de um homem de meia idade que nunca foi registrado. E da Transamazônica, que de rodovia só tem o nome, escondido num rastro de poeira.

Reportagens Xingu: