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Jornalista, casada e amante das palavras. A pernambucana mais brasiliense de todas.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A sete chaves

Se amigo é coisa pra se guardar, que seja guardada a melhor risada. Aquela de um encontro casual, de uma piada boba num lugar qualquer. Que seja guardada também a bronca sincera, o puxão de orelha, o bate-boca que logo se dissipa como um bocado de plumas ao vento. Mas que seja arquivado num lugar de destaque, o perdão. A capacidade de superar erros e falhas e prosseguir. Se amigo é coisa pra se guardar, que fiquem na galeria do peito momentos felizes e difíceis. Aquele choro consolado, um pedido de socorro ouvido, uma mão estendida no momento sempre certo. O bate-papo prolongado, sobre coisas importantes ou sobre nada. Tudo é assunto quando dois amigos se encontram. E que seja abrigado com cuidado todo carinho e respeito, todo bem-querer. Debaixo de sete chaves, protegidos de todo rancor ou mágoa. Porque amigo é antônimo de solidão. E quando está longe, sinônimo de saudade. Feliz dia do amigo!

terça-feira, 24 de junho de 2014

Motivos de sobra


Ela nunca teve muito tempo para chorar ou para sorrir. Motivos sim. Esses permeavam cada minuto espremido no meio de muito trabalho, três filhas, marido e irmãos. Todos, em alguma medida, dependentes diretos dessa força, que raramente esmorecia. Talvez se debulhasse em lágrimas durante um banho um pouco mais demorado ou no quarto fechado. Ou encharcasse a alma sem que ninguém ao redor percebesse. Um choro contido, engolido, para no dia seguinte expressar a mesma força de mulher guerreira. Depois veio um neto, dois, três. De repente, essa mulher madura, mãe dedicada de três meninas, viu no espelho o rosto da avó de três meninos. Paradoxo da vida. Agora, reaprende a mimar e ninar os novos xodós. Por eles também doa grande parte do seu precioso tempo, ainda espremido no meio de muito trabalho, e muitos percalços que talvez o tempo, só ele, possa dar jeito. Mas o tempo não espera, nem vacila. Simplesmente segue. Parece acelerado, mas os ponteiros percorrem incólumes a circunferência do relógio com a mesma marcha impecável de muitos séculos. Só que, por vezes, os fatos atropelam esse percurso e tudo o que outrora se planejava escapa entre os dedos. O mundo despenca novamente em suas mãos, já calejadas pela falta de tempo ser ser, simplesmente, ela mesma. Tempo de viver, de sorrir, de chorar. De acordar calmamente e se espreguiçar sem ter que dar satisfação a ninguém, de enfeitar a casa com flores, de sentir o perfume delas, de tomar um banho demorado só para se deleitar, de tomar um capuccino despretensioso num café da cidade quando bem entender, de escrever poesias, de viajar, de gastar consigo mesma o fruto de tanto trabalho, de tocar novos projetos profissionais com tranquilidade. Tempo de sair por aí pilotando o próprio carro e a própria vida. Será que ele vai chegar? Será que vai ser generoso o suficiente para desacelerar até que os percalços se resolvam? Mas fato é que eles, os percalços, não param de aparecer aos montes. Esses não tem sido generosos. Tentam, a todo custo, esmorecer essa força, desanimá-la, roubar a energia, mas nunca a esperança. E que essa esperança renasça a cada dia nublado, que a janela esteja sempre aberta para receber raios de sol, ainda que tímidos, mas capazes de aquecer qualquer dia frio. E que sobrem motivos para ser feliz e tempo para celebrá-los.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Contracheque de mãe

Eu admito. Fui pretensiosa ao extremo ao dizer que passaria a atualizar o blog com mais frequência, que as novidades viriam para cá fresquinhas, que os textos brotariam de novo e frutificariam por aqui. Ter tempo para isso ainda é luxo. Meu tempo está todo comprometido. Minha agenda lotada. De quê? De papinhas, mamás, fraldas, choro, banhos, palminhas, beijos, gargalhadas, brinquedos pelo chão, roupinhas para lavar, passar, parquinhos, pracinhas, cantigas, improvisos... Nos intervalos tento suprir algumas necessidades básicas, tipo comer, tomar banho, dormir e trabalhar. Mas quer saber a verdade? Meu maior prazer está nessa nova função que assumi há quase um ano: a de ser mãe em tempo integral, 24 horas no ar. Quer saber de mais uma coisa? Nunca trabalhei tanto em toda a minha vida, mesmo nas coberturas jornalísticas em que trabalhava até 16 horas seguidas, lutando contra fusos horários de até 11 horas de diferença. Mas, outra verdade seja dita, também nunca fui tão bem remunerada quanto agora. Afinal, quem se atreve a mensurar o valor de um sorriso banguela ao acordar, com duas covinhas lindas e bracinhos estendidos para te abraçar? Quem é capaz de colocar cifra numa voz suave dizendo mamã pela primeira vez e te enchendo de beijos babados? Que contracheque traz um adicional por felicidade? Creio que nenhum. É um trabalho duro, árduo, de muita responsabilidade, porém, muito bem pago com a moeda do amor. Finalmente, estou rica!

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Bravo!


Música. Idioma universal, que dispensa tradução, legenda e afins. Toca a alma, antes de mais nada. Toca quem toca e toca quem ouve. E não há como ficar imune aos seus efeitos, capazes de arrebatar a plateia mais fria, o ouvinte mais cético, o rabugento, o triste, o infeliz. E lá vem ela, com seus acordes, pausas, mínimas, semínimas e semibreves, colcheias e semicolcheias, staccatos, fermatas e firulas, provar que é, sim, um santo e milagroso remédio. Devolve a leveza, a contemplação, o sonho, o devaneio, o sorriso, ainda que discreto, no canto da boca. E um dos seus poderes mais sublimes: devolve memórias, momentos, lembranças guardadas que afloram, embaladas na escala perfeita maior. Música é ciência, é dedicação exclusiva, é ministério e sacerdócio. E por que não simplificar tudo isso. Música é paixão, de quem ouve e de quem toca. Como uma bailarina se esmera em conseguir o movimento perfeito, o músico tem a nobre missão de fazer a trilha sonora da vida. Porque a vida sem música é deveras triste, rabugenta e infeliz. Sustenidos, bemóis, bequadros. Claves, notas, pautas. Esse é um universo particular que torna-se universal a partir do momento que sai do papel para virar som. Quem tem ouvidos, ouça. E seja feliz!

Obs: Texto inspirado na abertura de mais um Curso Internacional de Verão da Escola de Música de Brasília, em 14.01.14. Vale a pena ver, ouvir e sentir. Bravo!

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Velha, eu?

Sou do tempo em que a EPTG era uma linda alameda de eucaliptos, com um ar puro e fresco, sem trânsito caótico, sem pardal, sem viaduto. Uma linha reta, pra ir e voltar de Taguatinga, sem Águas Claras no meio. Vicente Pires também era apenas parte da paisagem, com alguns chacareiros e produtores rurais, sem sobrados, mini-prédios ou buracos na pista. Só estradinhas de terra ali pelo meio. Também sou do tempo em que o Sudoeste era um imenso canteiro de obras. Uma parte obscura em frente ao Parque da Cidade, com estandes de vendas que se espalhavam pelo meio do caminho. Por falar em Parque da Cidade, ele tinha um portão de ferro nas principais entradas, que era fechado de vez em quando. Os jardins e as lindas fontes da Praça das Fontes eram um paraíso para a criançada e instigavam a imaginação e muitas brincadeiras. Hoje estão abandonados. Mas o foguete do parquinho Ana Lídia continua lá, ainda bem. Vai continuar fazendo parte da história de muita gente. Nesse passeio pelas ruas de Brasília e pela memória, também recordo do prédio fantasma que ficava ao lado do Venâncio 2000. Uma estrutura de lajes cor de concreto ao lado de uma grande descida para as docas. Hoje é o Pátio Brasil. E o Brasília Shopping? Esse não existia nem no papel. Ah, o ParkShopping, esse era um recém-nascido, pequeno, aconchegante, sempre com vaga no estacionamento, também pequeno. A decoração interna não era de orquídeas, mas de pequenas árvores. Ao invés de HotZone, a cobiçada Divertilândia. Tinha também a Mesbla. Nada de Renner. McDonald's também era um só. E a pipoca do cinema ainda tinha preço de pipoca. Na área externa, sempre aterrissava o Ita ou o Playcenter, alegria da molecada. Estes sim, davam filas quilométricas nos brinquedos, especialmente na novidade que era o Kamikaze. Para não ser injusta, cito o Conjunto Nacional, com a fachada sempre colorida e iluminada, isso não mudou (só a forma), e as Lojas Brasileiras e Pernambucanas no térreo. Continuando a viagem no tempo, a Praça dos 3 Poderes era point das famílias no fim de semana, munidas de milho para os pombos e para os patos que ficavam no espelho d'água atrás do Congresso. As cúpulas da Câmara e do Senado também não eram isoladas, para a alegria do povo. Ganhava quem escalasse mais alto a do Senado. Indo um pouco mais longe, os condomínios do Colorado eram apenas demarcações de lotes, a preço de banana. Nada de comércio organizado por ali. Casas, só na planta. Bom, esquina ainda não tem por aqui. E quando parece que tudo mudou, vem o Noroeste, um sem número de condomínios lá pro lado do Jardim Botânico e um Mangueiral onde não se avista uma mangueira sequer. Ainda há muito para lembrar e para mudar. Mas isso fica para uma próxima. Por enquanto, a única certeza é que, sim, estou ficando velha. Nem a querida kombi, tão comum nas largas avenidas de Brasília, resistiu ao tempo, que passa para todos. E se relembrar é viver, vivo feliz com meus 30 anos de Brasília. (Em breve Velha, eu? parte 2)


Borboletas

Não digo que o blog ficou às moscas por longos meses, prefiro dizer que ficou às borboletas. Elas são símbolo da metamorfose pela qual passei no último ano. Uma mudança radical, intensa, imensa, linda. Como anunciei aqui, fui promovida de apenas filha para mãe, com todo o significado que essa palavra traz. Pensei até em criar um outro blog voltado para as aventuras da maternidade, com espaço para contar tantas novidades que surgem a galope a cada dia. Mas também não tive tempo. Aliás, a falta de tempo é um dos sintomas dessa transformação. Mas disso não reclamo. O tempo ao lado do Davi é tão gostoso que sigo sem pressa. Sábias mães experientes já me alertavam: curta cada momento porque passa muito rápido. É o que estou fazendo. A gente deita e rola, dá gargalhada, ele me ensina, eu aprendo, eu ensino, ele aprende. Uma troca constante e maravilhosa, sem qualquer exagero. A retrospectiva de 2013, portanto, não caberia em algumas frases, mas num Romance completo com centenas de páginas. Elas estão todas escritas na memória e no coração, e também num caderninho de lembranças que tento atualizar a cada mês com recortes, fotos e a evolução do bebê. Mas quero voltar voando para esse Caso Antigo, tal qual a borboleta. Que esse ano traga novos voos, novas paisagens, novas emoções. Disso não tenho dúvida. Um feliz, intenso e imenso 2014 para todos nós. Viva a leveza da vida e as cores do tempo, pintado à mão pelas nossas escolhas. Que seja uma rica aquarela de realizações, com a pincelada marcante do amor.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Por que o frio?

Por que o frio? Por ser um convite ao abraço, ao afago. Um inevitável pretexto para chegar perto, aconchegar-se, buscar o que de melhor se pode achar no outro. Quem sabe um carinho acolhedor, um abrigo, um cafuné capaz de derreter o gelo, ou até quebrá-lo. O frio é, definitivamente, unir-se, e não separar-se. Por isso, e por muito mais, escolhemos aquela noite fria de 9 de julho (e de 9 graus) para nos unirmos. Não apenas por um instante, ou enquanto durasse o inverno, mas por todas as demais noites e dias e fases da vida. Uma escolha de toda e de cada estação. Que venha o frio, o vento, a neve. Um coração aquecido não pega resfriado.

Poder de síntese


A vida aconteceu de maneira tão intensa nos últimos meses que fica impossível sintetizar todos os fatos num mísero post. Mas vou enriquecê-lo só com a notícia do ano, meu lead, minha manchete: me tornei mãe. O dia 03 de maio de 2013 entrou para a nossa história e inaugurou uma novinha em folha, a do Davi. Pequeno que já despertou em nós um amor gigante. Tanta coisa para contar, experiências para compartilhar. Mas o tempo de mãe, pudera, é escasso. Então, prometo que volto, um dia, entre uma soneca e outra deste pequeno que precisa tanto de mim agora. (E por falar nisso, ele já está despertando do seu rápido descanso). Até!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Terra à vista


Em poucas semanas, o mundo não será o mesmo, nem a casa, nem a vida, tampouco eu. Sairei do delicado status de filha, para o dedicado status de mãe. Um upgrade de novas emoções, sensações e responsabilidades. Deixarei de ser gestante para ser puérpera, lactante, e outro sem número de nomes que quiserem dar. Para mim, simplesmente mãe, com toda a complexidade implícita nessas três letras. A barriga já começa a pesar, tal qual a ansiedade diante do novo cenário que se constrói. Medo, insegurança, força, coragem, tudo junto e misturado, com o perdão do jargão ultrapassado. Mas é assim. O novo ser que não para de se movimentar dentro de mim, em breve movimentará tudo ao redor aqui fora. Porque nem o mundo, nem a casa, nem a vida são ou serão mais os mesmos, tampouco eu. Serei mais feliz.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Palavras perfumadas

Apaixonada pelas palavras, a menina cismava em preencher aquelas folhas perfumadas dos diários cor de rosa que ganhava da mãe. Eram sonhos, devaneios, histórias sem pé nem cabeça, mas sempre com o coração dela impresso em cada frase. Com a letra arredondada, fruto de horas a fio nos cadernos de caligrafia exigidos pela professora, expressava o que tinha de mais puro, travesso, bobo, profundo. Textos coloridos de sentimento, que a transportavam para um mundo só dela, que de solitário não tinha nada. As palavras eram fiéis companheiras de toda e qualquer hora. A menina cresceu, as páginas com cheiro de lavanda deram lugar a um sem número de bloquinhos de papel reutilizado, e a letra arredondada se transformou em garranchos que tinham o dever de transcrever a fala rápida de um entrevistado. Os registros de sonhos e devaneios viraram aspas extraídas de uma coletiva de imprensa, sem eu-lírico, sem narrador-personagem. Ela tornou-se uma mensageira de fatos, uma porta-voz de relatos que exigiam a máxima imparcialidade, a não ser que quisesse ser acusada pelo editor de fazer juízo de valores. Aquele mundo escrito não era mais só dela, era compartilhado com leitores, telespectadores e ouvintes anônimos, aos milhares. E as palavras, ah, as palavras, continuaram sendo fiéis companheiras, mas travestidas de instrumento de trabalho. Sem figuras de linguagem, sem excessos, sem vírgulas fora do lugar. De vez em quando, um nariz de cera para ajudar a engolir um bocado seco de realidade, mas não bastava ser verossímil, tinha de ser verídico, sob a mira da ética profissional. Mas o que tornava esse labor fascinante, ainda que sem o perfume de outrora, eram os personagens que davam vida a cada narrativa e os acontecimentos que marcavam a história de muita gente, e precisavam ser contados. Ela já não mais era protagonista dos fatos que narrava, mas testemunha ocular da história. Sem demagogia. Fatos políticos, dramas sociais, tragédias, histórias de superação, grandes eventos, políticas públicas, descobertas científicas, relações internacionais, acordos multilaterais, crises e marolas. De tudo, um pouco. E no meio do todo, aquele universo particular bem guardado, com a mesma essência, o mesmo faro, a mesma paixão que há muito desenvolveu pelas palavras, por cada significante e significado. Paixão que não se perdeu com o tempo, não esfriou, mas ganhou traços de maturidade. Às vezes, a jornalista sente falta daquela menina, das frases bobas e travessas. Da letra arredondada, mais caprichada que qualquer fonte de computador. Do sentimento que coloria aquelas páginas. Mas as palavras, estas, fieis companheiras, jamais deixarão de ser perfumadas.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Vida que acontece


Dá até para brincar com as palavras. Novidade de vida. Vida nova. Vida. Davi. É assim, meio sem eira nem beira, que narro o maior milagre que já me aconteceu. O de conceber um filho. Um pedacinho de mim, da gente. Bendito ventre que resolveu frutificar. E acolher o fruto desse amor. Estava eu na terra da rainha, correndo atrás da tocha paralímpica, debaixo de chuva, carregando uma mochila nas costas e um microfone nas mãos. Tentando acompanhar a maratona dos atletas heróis, muitos cegos ou cadeirantes, que desfilavam com a gloriosa chama dos Jogos de Londres 2012. No meio do caminho, paro para gravar uma passagem para a reportagem da TV, sofro até um esbarrão, tamanha correria, mas sigo em frente, ofegante, coração a mil. Até aí, nada demais. Ossos do ofício de qualquer repórter. O lead dessa matéria era outro. Mal sabia eu que já saíra de casa embalando um microscópico embrião, que me acompanhava nessa árdua cobertura. Descobri no hotel londrino, na Grosvenor Square, três dias depois de ter saído do Brasil. Uma pulga atrás da orelha e uma farmácia do outro lado da rua foram a combinação perfeita para encorajar o teste. Afinal, foram nove meses de tentativas. Ao ver rapidamente o segundo tracinho vermelho do exame aparecer, confirmando que eu não estava mais só, a sensação foi um misto de surpresa, felicidade, preocupação, emoção. Sentimentos nada óbvios naquele momento totalmente novo, que revelava o desejo guardado de ser mãe. Depois de algumas lágrimas e palavras de gratidão a Deus, criador da vida, respirei fundo e comecei a pensar como contaria a boa nova estando tão distante do mais novo pai que também se revelava. Sempre fantasiei esse momento ao vivo e a cores, para ver de perto a reação, a cara, o misto de sensações dele, que certamente se confundiriam com as minhas. Mas não poderia esperar mais dez dias para contar, quando voltasse para casa. Era uma notícia quente, necessária, urgentíssima. Telefonei. Ele estava rodeado de pessoas, participando de um ensaio, e apenas pedi que quando chegasse em casa me retornasse. Queria que fosse um momento só nosso. A distância já era obstáculo suficiente. Nada de ruídos, de barulho, ele me retornou a ligação mais tarde do silêncio do nosso lar e pedi a ele que se sentasse. Você vai ser papai! Falei com a voz embargada. Via Embratel, senti dele todo aquele misto de emoções já esperadas. Lágrimas aqui e lá. Foi assim a notícia. Nos dias seguintes tive que conciliar trabalho e emoção. Acionei o seguro viagem, fiz exames na capital inglesa, ouvi do médico que ele não conseguia enxergar ainda o embrião. A afirmação nos deixou atônitos, como bons marinheiros de primeira viagem. Mas assim que voltei para o Brasil, repetimos juntos o exame e lá estava um coraçãozinho, envolto num ser que media apenas dois milímetros, batendo, irradiando vida. Poucas semanas depois, um exame de sangue para confirmar o sexo. Eis que descobríamos o Davi, nosso filhão. Nome escolhido desde a infância pelo pai, que pulou de alegria ao ler MASCULINO no resultado. A mãe, essa que vos fala, desandou a chorar, não de tristeza, mas mais uma vez de emoção. Era hora de revelar tudo aos familiares e amigos. Era hora de mudar rotinas, cuidar mais de mim, organizar a casa, abrir espaço para o mais novo morador, que em breve chegará. Hoje ele pesa quase um quilo e mede enormes 35 centímetros. Os chutes e cambalhotas são frequentes. Mais uma sensação reveladora. O quarto está quase pronto, mas pronto mesmo está nosso coração para viver novas surpresas, sensações, emoções que certamente virão a galope. Coração sempre grato por tudo o que já aconteceu até aqui. Estive ausente do Caso Antigo, mas hoje volto falando da vida que acontece dentro e fora de mim. Que 2013 traga novos títulos e posts. Até lá!

domingo, 7 de outubro de 2012

Retirante


Calor insuportável. Secura mortal. Falta de ar e de mar. Já disse e repito. Meus pensamentos e minha inspiração são tais quais os retirantes do sertão. Fogem para longe, numa frustrada tentativa de encontrar um oásis em que possam se refrescar e voltar a frutificar. Mas enquanto o tempo estiver assim, tudo não passa de miragem. Será o fim do mundo e das palavras? A fonte secou. O fogo se alastrou rápido. Só fuligem por todo canto. Nem sinal de chuva. Nem sinal de mim.

Em breve espero poder voltar com notícias frescas, colhidas do pé, e regadas de um novo ânimo, porque assunto não falta. E muita novidade.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A segunda impressão

De novo a cosmopolita Londres. A segunda impressão foi a de uma capital acolhedora de gente de todo o mapa. Ao passar por uma galeria de fotos, retratos gigantes de desconhecidos de vários países pareciam me encarar, me perseguir, até se revelarem comuns e iguais a tantos outros rostos que já vi. Apressei o passo para fugir, mas na abarrotada Oxford Street é difícil não esbarrar em alguém menos apressado. Comprei um waffle só pelo cheiro que ele indiscretamente espalhava pela rua e também uma caixa de bombons para meu amor. Mas meu objetivo nessa andança era forrar o estômago, vazio há cerca de oito horas. Então optei por um Fish and Chips para começar bem a nova maratona, dessa vez, paralímpica. Que venham as medalhas, os retratos, as memórias e outras impressões, porque todas elas ficam.  Good night.


Alguns flashes dessa cobertura especial e inesquecível:





sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O lugar onde cabem os sonhos

Quem cabe no seu todos? A provocação da comunicadora Cláudia Werneck sobre direitos das pessoas com deficiência me instiga há uma década. Afinal, se o Brasil é, de fato, um país de todos, como diz o conhecido slogan, esse todos precisa ser íntegro, sem múltiplos pesos e múltiplas medidas. Há algum tempo, temas como acessibilidade e inclusão estão mais presentes na pauta do dia, mas essa pergunta ainda não quer calar. Ecoa como um estribilho. Quem cabe no seu todos? A impressão é de que ainda existem dois mundos imaginários, tais quais a linha do Equador, um com e outro sem deficiência. E, no ar, uma falsa sensação de igualdade em meio à diferença, quando na verdade o mosaico da diferença que deve dar sentido à promoção da igualdade. Uma reviravolta de conceitos, preconceitos, educação e cultura. Mas se exclusão foi palavra-chave no dicionário da desigualdade por séculos a fio, que ela mesma seja agora excluída do vocabulário dos direitos. Direitos de todos e de cada um. De ir e vir, de ser, de sentir, de sonhar sonhos que cabem, todos, num mesmo espaço chamado respeito. Espaço em que o intolerante é o único descabido, e intolerável.

Escrevo esse texto às vésperas de embarcar para um grande projeto de cobertura das Paralimpíadas de Londres 2012. Onde superação será a palavra de ordem. Minha e dos atletas.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Novos projetos, novas histórias

Londres ficou para trás, mas já se aproxima novamente. Em poucos dias vou mergulhar de cabeça no esporte paralímpico. Um projeto profissional, um sonho pessoal, mais um desafio. Espero reencontrar exemplos de superação como os recordistas Terezinha Guilhermina, do atletismo, e Daniel Dias, nadador que será o porta-bandeira do Brasil. Espero também ter tempo de contar histórias, afinal, o Caso Antigo se propõe a isso, mas tem andado abandonado. Espero me redimir. Quanta esperança.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Ouro olímpico


Agora é fato. Londres está logo ali, depois de uma breve travessia que certamente marcará minha trajetória. Turismo passa longe do objetivo da viagem. Como repórter, vou acompanhar a presidente às Olimpíadas 2012, quando o Brasil acionará o cronômetro para a contagem regressiva rumo a 2016. E numa cobertura presidencial, obviamente, o que importa é o estritamente oficial, tudo ao redor se torna coadjuvante. Mas, nesse caso, não dá para chamar de coadjuvantes os melhores atletas do mundo. Embora no centro da minha pauta não estejam os novos recordes, medalhas e a superação dos pódios, farei, ainda que por alguns instantes, parte desse sonho olímpico. Sonho que acalento desde os meus 13 anos, quando, extasiada, assisti à abertura das Olimpíadas de Atlanta pela TV. Infelizmente não estarei entre os 80 mil especadores dessa fantástica cerimônia dentro do Estádio Olímpico de Londres. O espaço é concorrido e tem restrições até para comitivas de chefes de Estado. Mas estarei mais perto que nunca dessa realização, certamente trazendo à memória grandes feitos como o da minha xará, Gabrielle Andersen, maratonista suiça imortalizada pela persistência e coragem de concluir o percurso em 1984, mesmo que cruzasse a linha de chegada com passos trôpegos e quase desacordada. Essa foi a marca do espírito olímpico, e é com esse espírito que sigo para Londres. Na bagagem, mais que uma missão corriqueira, cheia de deadlines e desafios diários, mas a certeza de que essa maratona renderá uma experiência que vale ouro.

domingo, 8 de julho de 2012

Rio+20. Missão cumprida (e comprida).


Por dez dias ininterruptos no mês de junho, o dicionário mundial parecia trazer apenas palavras repetidas e, por vezes, redundantes, porém, necessárias. Sustentabilidade, economia verde, empregos verdes, e por aí vai. Além de marcar os 20 anos da Rio 92, a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, Rio+20, quis olhar para um futuro a longo prazo, para as próximas duas décadas. Mais de cem chefes de Estado discursaram por horas a fio, centenas de eventos simultâneos se espalharam pelo Rio de Janeiro, palestras e debates intermináveis arrancaram até cochilos da plateia. Enquanto isso, eu e outros cerca de 4.500 colegas jornalistas do mundo todo fazíamos a cobertura desse megaevento. Numa perspectiva mais otimista, trabalhamos 12 horas por dia. Mas tudo em prol da missão que nos foi delegada: noticiar o que seria desenhado para as próximas gerações, pelo menos na teoria. Já era madrugada quando o chamado Rascunho Zero se tornou, oficialmente, o documento final da Conferência, processo liderado pelo Brasil no segundo tempo da prorrogação. Ainda era cedo quando a notícia da morte da tia Vi caiu como uma bomba no quarto do hotel, e de lá não saí por um dia. Já era noite quando deixamos o centro de convenções Riocentro pela última vez, com a sensação de dever cumprido, por mais piegas que essa expressão pareça. Agora, resta saber se os líderes mundiais vão fazer o dever de casa e diminuir a emissão de gases do efeito estufa, adotar novos padrões de consumo e erradicar, finalmente, a pobreza extrema, para que esta conferência não tenha sido apenas um capítulo de alguma história da carochinha, perdida no tempo e no espaço. Afinal, há quem diga que a Rio+20 foi um fracasso, que as expectativas foram frustradas, que tudo não passou de palavras demagogas que países ricos não assinam embaixo. Manifestações populares também tomaram as ruas do Rio para discordar de posições adotadas pelos países em 50 páginas de documento. Enquanto jornalista, acredito no poder da informação para instigar reflexões e formar opiniões e, enquanto cidadã, acredito na validade da Conferência para chamar a atenção global. Me orgulho de ter participado desse desafio em equipe. De ter testemunhado o mesmo movimento que meus pais vivenciaram na Eco 92, quando eu era só uma criança. De ter acompanhado de perto os rumos que o planeta está tomando nesse tripé que pretende dar mesmo peso ao desenvolvimento econômico, social e ambiental. Não posso prever os próximos vinte anos, mas de uma coisa eu sei. O Rio de Janeiro continua lindo.
Orla de Copacabana